quinta-feira, 5 de julho de 2007

Análise e articulação da linguagem

A linguagem é um sistema de sinais auditivo-orais, articulados, de emprego numa comunidade. Articular significa agrupar unidades menores numa outra maior, todas caracterizadas por uma parcela significativa, ou distintiva. Vejamos a palavra gatinhas. À primeira vista trata-se de uma unidade, mas se analisarmos descobriremos quatro elementos distintivos, cuja soma é que nos dá o conjunto maior:

gato 1 + inho 2 + a 3 + s 4

1 — o animal
2 — o tamanho
3 — o sexo
4 — a quantidade

Esses elementos se comportam significativamente, porque qualquer mudança de um deles há de prejudicar apenas o sentido da parcela atingida: cachorrinhas (outro animal), gatonas (outro tamanho), gatinhos (outro sexo), gatinha (outra quantidade).

Analisar é, assim, o oposto de articular: este compõe o elemento maior; aquele nos fornece os elementos menores, por sucessivas divisões. Esta característica, articulatória ou analítica, permite-nos distinguir a linguagem humana de outros sistemas de sinais que, por analogia, se poderiam chamar também de linguagem: os sinais de trânsito, as vozes de animais, o próprio choro da criança.

Os elementos lingüísticos, depreendidos pela análise, se escalonam em níveis de articulação: um elemento maior (estrutura) constituído de elementos menores (subestruturas).

Ao observarmos a ocorrência desses elementos no discurso, podemos partir para a seguinte classificação:

a) elementos habituais: usualmente repetidos pelo falante;
b) elementos seletivos: escolhidos pelo falante, quando a língua lhe oferece opção: bonito (talvez o habitual), lindo, formoso, belo, etc.;
c) elementos ocasionais: raramente empregados pelo falante.

Destes últimos há que salientar três tipos diversos, cuja importância para qualquer estudo decresce na medida em que o apresentamos:

a) os originais: criados pelo indivíduo e possíveis de se tornarem habituais, como chuvar e chuvinheno, num poema de Carlos Drummond de Andrade (Andrade, 1964, 374);
b) os esporádicos: usados pelo falante durante certo tempo e abandonados mais tarde por ajustamento ao grupo social (jerimum e jabá, caso o nordestino venha para o Sul do país);
c) os acidentais: provocados por lapso e corrigidos de imediato: eu truxe, ou melhor, eu trouxe...

Nem todos esses elementos são distintivos; alguns são irrelevantes: a mudança de qualquer destes não prejudica a compreensão, mas pode identificar o estrangeiro. Tomemos alguns exemplos para maior clareza. O costume português é dizer sempre: amar a Deus; o vocábulo grifado é, porém, irrelevante e compreenderíamos também se alguém dissesse: “eu amo Deus...” Estranharíamos, contudo.

Paremos também nestes dois períodos:

a) A Meu amigo/ B conhece/ C teu professor.


b) A A cidade de Bento Gonçalves/ B há de crescer/ C nos próximos anos.


No primeiro deles traria completa alteração a ordem: C B A (Teu professor conhece meu amigo.) e outras ordens dificultariam ao máximo a compreensão; o segundo permite várias outras ordens, todas bem compreensíveis: A C B — B A C — B C A — C B A — C A B. Em resultado: no primeiro período a ordem é distintiva, mas no segundo é irrelevante.

É preciso notar que bastaria à língua um traço distintivo e realmente apenas um se comporta como distintivo, quando se acumulam as indicações lingüísticas numa verdadeira redundância; consideremos um período simples e marquemos as indicações de cada função:

Eu/ amo /a Deus.
sujeito/ predicado/ objetivo

Aí temos o sujeito, marcado pelos seguintes traços distintivos: ordem de seqüência e concordância do predicado; e o objetivo, assinalado duplamente: colocação depois do predicado e regência (prepositivo a). Em vista disso, tanto para o sujeito, quanto para o complemento objetivo, a ordem parra a irrelevante, ficando distintivas a concordância e a regência, apenas. Conclusão: é completamente livre o lugar onde colocamos esses três elementos e o mesmo é que se verifica no segundo período, onde as seis ordens se empregam.

Os elementos do discurso permitem-nos estabelecer:

a) a norma: a soma dos elementos habituais e seletivos, distintivos ou irrelevantes;
b) o sistema: a soma dos elementos distintivos.

Não importa o número de falantes que pesquisarmos, o sistema deve sempre ser o mesmo em todos, sob pena de lidarmos com outra língua, em estágio já evoluído. A norma, contudo, há de diferir de indivíduo para indivíduo, de um para outro grupo social, de uma para outra região; somada ao sistema é que nos dará uma linguagem.

Assim, o sistema e a norma individual constituem o idioleto; o sistema e uma norma social nos trarão a gíria; o sistema e a norma regional nos fornecerão o dialeto; o sistema e a norma comum de todos os falantes farão a língua comum.