Alfredo Bosi, trabalhando sempre com o conceito antropológico de cultura,encontra a explicação no “imaginário do povo, desde o rito indígena ao candomblé, do samba-de-roda à festa do Divino, das Assembléias Pentecostais à tenda de umbanda,sem esquecer as manifestações de piedade do catolicismo que compreende estilos rústicos e estilos cultos de expressão” (1992, p. 323). O autor considera que estas são manifestações grupais, alheias à rede do poder econômico e da força ideológica dominantes.
Esta cultura, segundo Bosi, tem o processo de sua formação antes e também agora sob o limiar da escrita, não obstante uma visão ocidentalizante e colonizadora insista em estigmatizá-la como sobrevivente a um estado de primitivismo e de subdesenvolvimento.
Por outro lado, vemos que também outra posição diametralmente oposta é apontada por Bosi, ao apresentar a vertente romântico-nacionalista, mítica, que considera valores eternamente válidos os transmitidos pelo folclore, e ignora ou recusa as suas vinculações com a cultura de massa e a cultura erudita. Contudo, o autor chama nossa atenção para a confluência entre as duas manifestações, apontando para uma “teoria da aculturação que exorcise os fantasmas elitista e populista, ambos agressivamente ideológicos e fonte de arraigados preconceitos” (1992, p. 324).
E, para corroborar sua tese, exemplifica:
Cultura popular implica modos de viver: o alimento, o vestuário, a relaçãohomem-mulher, a habitação, os hábitos de limpeza, as práticas de cura, asrelações de parentesco, a divisão das tarefas durante a jornada e,simultaneamente, as crenças, os cantos, as danças, os jogos, a caça, a pesca,o fumo, a bebida, os provérbios, os modos de cumprimentar, as palavras tabus, os eufemismos, o modo de olhar, o modo de sentar, o modo de visitar e ser visitado, as romarias, as promessas, as festas do padroeiro, o modo de criar galinha e porco, os modos de plantar feijão, milho e mandioca, o conhecimento do tempo, o modo de rir e de chorar, de agredir e de consolar... (1992, p. 324).
O autor possibilita uma compreensão ampliada dessas três formas de manifestações estabelecendo:
a cultura erudita cresce principalmente nas classes altas e nos segmentos mais protegidos da classe média: ela cresce com o sistema escolar. A cultura de massa, ou indústria cultural, corta verticalmente todos os estratos da sociedade, crescendo mais significativamente no interior das classes médias. A cultura popular pertence, tradicionalmente, aos estratos mais pobres, o que não impede o fato de seu aproveitamento pela cultura de massa e pela cultura erudita, as quais podem assumir ares popularescos ou populistas em virtude de sua flexibilidade e da sua carência de raízes (1992, p. 226).
COMPETÊNCIA SIGNIFICATIVA DO AUTOR
Professor titular de literatura brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, atual vice-diretor e ex-diretor (1997 a 2001) do Instituto de Estudos Avançados, Alfredo Bosi é editor da revista Estudos Avançados desde 1989. Em março de 2003, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Foi vice-diretor do Instituto de Estudos Avançados de 1987 a 1997, coordenou o Programa Educação para a Cidadania (1991-96), integrou a comissão coordenadora da Cátedra Simón Bolívar (convênio entre a USP e a Fundação Memorial da América Latina) e coordenou a Comissão de Defesa da Universidade Pública (1998). Presidiu a comissão do IEA que elaborou o Código de Ética da Universidade e é o presidente da Comissão de Ética da USP, sediada no Instituto.
Bosi é autor de "História Concisa da Literatura Brasileira" (1970), "O Ser e o Tempo da Poesia" (1977), "Dialética da Colonização" (1992) e "Machado de Assis: o mEnigma do Olhar" (1999) e "Literatura e Resistência" (2002). É ganhador do prêmio "Melhor Ensaio" da Associação Paulista de Críticos de Arte por "O Ser e o Tempo da Poesia", em 1977, e "Dialética da Colonização", em 1992. Por este último, tema central desta resenha, recebeu também o Prêmio Casa Grande e Senzala em 1992, conferido pela Fundação Joaquim Nabuco, e Prêmio Jabuti para melhor obra de Ciências Humanas, da Câmara Brasileira do Livro. E em 1992 recebeu a distinção "Homem de Idéias", conferida pelo Jornal do Brasil.
IMPORTÂNCIA DO TEMA
O autor de dialética da colonização amplia o conceito de cultura ao abordar a indústria cultural, a cultura popular; e as relações entre as culturas brasileiras, como erudita e de massa; de massa e popular; erudita e popular.
TEMA ABORDADO NA OBRA
Na obra Dialética da Colonização (1992), Bosi lança um olhar crítico à questão cultural, ao especificar as culturas brasileiras presentes na Cultura Brasileira. Tendo por base a concepção antropológica de cultura, explica que esta é o conjunto de modos de ser, viver, pensar e falar de uma dada formação social; e, ao mesmo tempo, abandonar o conceito mais restrito, pelo qual cultura é apenas o mundo da produção escrita provinda, de preferência, das instituições de ensino e pesquisa superiores(1992, p. 319).
Alfredo Bosi aponta que há limitações tanto na cultura popular quanto na cultura erudita, pois enquanto a primeira é limitada por sua falta de horizontes; a segunda, por sua falta de raízes. Da mesma forma que o rústico não sabe o céu sobre sua cabeça, o erudito não sabe o chão sob seus pés. É preciso, então, que o rústico alerte o erudito sobre a existência do chão e que este desperte aquele para a existência do céu.
HISTÓRICO DO TEMA
Na compreensão de Bosi, a relação entre cultura erudita e popular é a que apresenta maior grau de disparidade. Ou a primeira ignora as manifestações simbólicas do povo, ou as encara como um voyeur: “A cultura erudita quer sentir um arrepio diante do selvagem” (1992, p. 330).
Dessa relação conflitante de distanciamento e paixão pode nascer tanto a demagogia populista quanto a mais bela obra de arte. Tanto é assim que o autor cita como exemplo dessa última alternativa a música de Villa-Lobos, o romance de Guimarães Rosa, a pintura de Portinari e a poesia negra de Jorge de Lima.
E, naturalmente, a estes podemos acrescentar muitos outros: o nacionalismo das manifestações modernistas; e, na Música Popular Brasileira, as canções de Milton Chico Buarque de Hollanda, somente para citar alguns exemplos. A explicação para essa relação produtiva e positiva entre o artista erudito e a vida popular, na visão de Bosi (1992, p. 332), é simples: “a relação amorosa, que não carrega na produção erudita qualquer forma de preconceito, projetando na manifestação popular as suas próprias angústias”.
Por outro lado, Bosi aponta exemplos de uma erudição cheia de preconceitos, especialmente nas obras literárias do século XIX. “O índio, o negro, o mestiço, mulato ou caboclo são vistos como seres dignos de simpatia, embora mais toscos, mais rudes,mais instintivos, em suma, mais primitivos e, palavra que escapa, inferiores aos brancos” (1992, p. 223).A respeito da importância do movimento modernista no processo de aproximação entre cultura erudita e popular, o autor aponta que os intelectuais paulistas seguiam uma vertente mitopoética. “Cultura popular é entendida como expressão da sensibilidade tupi, articulada em lendas, mitos e ritos recontados pelos cronistas, pelos jesuítas e por alguns antropólogos contemporâneos. Em um segundo tempo Mário de Andrade se pôs a pesquisar também o mundo do negro e do mestiço” (1992, p. 333). Entretanto, Bosi tece indagações acerca da corrente modernista da década de 1920: teria sido uma alternativa estética de primitivismo puro ou uma manifestação futurista do que viria a ser a contracultura dos anos 60, quando o Tropicalismo retoma opensamento antropofágico do modernismo? “A cultura erudita busca renovar-se peloaproveitamento mais ou menos bruto, mais ou menos elaborado, do que lhe parece sera espontaneidade e a vitalidade populares” (1992, p. 334). Outro questionamento ainda do autor é se a cultura popular recebe alguma coisa da cultura erudita ou institucional. E para este busca resposta na História:
As camadas mais pobres da população brasileira [...] foram colonizadas pela cultura rústica ou, eventualmente, urbana dos portugueses, e pelo catolicismo ritualizado dos jesuítas; e agora, já em plena mestiçagem e em plena sociedade de classes capitalistas, estão sendo recolonizadas pelo Estado, pela Escola Primária, pelo Exército, pela indústria cultural e por todas as agências de aculturação que saem do centro e atingem a periferia. [...] Até onde as imagens, as idéias e os valores dessas agências culturais estarão penetrando no imaginário e condicionando o sistema de valores do povo? (1992, p. 336). Bosi chama estes processos de “fenômenos de reinterpretação”, pelos quais toda cultura dominante é absorvida e decodificada pela cultura dominada, de tal modo que, nesta última, já não fica da cultura superior nada a não ser, talvez, o desejo que têm os dominados de apreender os dons e os poderes dos seus patrões.
SOB O SIGNO DE CAM
Alfredo Bosi, em sua obra Dialética da colonização, especificamente no ensaio "Sob o signo de Cam", faz uma análise de alguns aspectos fundamentais da poesia condoreira de Castro Alves. Para o autor, nossa retórica poética sinaliza para processos de transformação, com a mudança da imagem do Brasil que, de paraíso tropical, passa a ser representado com uma nódoa social, por insistir na política escravagista. A paisagem poética que é revelada na obra de Castro Alves apresenta uma contradição entre o mundo natural e o inferno social, com projeções deste sobre as cenas românticas. O poeta mostra "palmeiras torturadas" e "epopéias manchadas" pelo estigma da escravidão. Nos limites do século XIX, Bosi vislumbra uma importante mudança no nível retórico.
Fazer o continente negro dizer-se, dar-lhe o registro de primeira pessoa, foi um passo adiante no tratamento de um tema que, pela sua posição em nosso drama social, tendia a ser elaborado como a voz do outro. [...] A combinação de uma África arcana ("há dois mil anos"...) com uma África-sujeito ("te mandei meu grito") é a novidade primeira do poema [...] pois dá ao pretérito mais obscuro e ao mito [...] o poder magnético da presença imediata em que se resolve todo ato de interlocução. A África é [...] um ser animado e, pela atualização do eu poético, um ser que tem consciência de sua identidade e de sua história (1992, p. 254).
Uma leitura mais atenta da obra de Alfredo Bosi mostra-nos como a tradição judaico-cristã, embasada no Gênesis, atribui ao homem negro a maldição de Cam – espécie de projeção de culpa. Por fim, para o autor de Dialética da colonização, a referência bíblica circula nos séculos XVI, XVII e XVIII, servindo de pretexto tanto às teologias católicas quanto àsprotestantes para que, se utilizando do velho mito com propósitos mercantis, justificassem a política colonizadora européia, que aprisionava populações islâmicas – ou de outras crenças – para salvá-las da "danação de Cam"."Mercadores e ideólogos religiosos do sistema conceberam o pecado de Cam e sua punição como o evento fundador de uma situação imutável [...]" (1992, p. 258).
ASPECTOS RELEVANTES DA OBRA
Dialética da colonização é uma reunião de ensaios do crítico Alfredo Bosi em que este aborda temas variados que vão desde a análise de particularidades nas obras de Anchieta, Vieira e José de Alencar, até reflexões sobre temas como cultura, indianismo e indústria cultural.
RECOMENDAÇÃO DA OBRA
Lendo Dialética da colonização é notório o grande crítico literário, ensaísta e intérprete do Brasil que é Alfredo Bosi. Esta sua obra é uma interpretação ampla, profunda e aberta do processo de formação cultural do Brasil.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BOSI, Alfredo. Sob o signo de Cam. In: Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
Esta cultura, segundo Bosi, tem o processo de sua formação antes e também agora sob o limiar da escrita, não obstante uma visão ocidentalizante e colonizadora insista em estigmatizá-la como sobrevivente a um estado de primitivismo e de subdesenvolvimento.
Por outro lado, vemos que também outra posição diametralmente oposta é apontada por Bosi, ao apresentar a vertente romântico-nacionalista, mítica, que considera valores eternamente válidos os transmitidos pelo folclore, e ignora ou recusa as suas vinculações com a cultura de massa e a cultura erudita. Contudo, o autor chama nossa atenção para a confluência entre as duas manifestações, apontando para uma “teoria da aculturação que exorcise os fantasmas elitista e populista, ambos agressivamente ideológicos e fonte de arraigados preconceitos” (1992, p. 324).
E, para corroborar sua tese, exemplifica:
Cultura popular implica modos de viver: o alimento, o vestuário, a relaçãohomem-mulher, a habitação, os hábitos de limpeza, as práticas de cura, asrelações de parentesco, a divisão das tarefas durante a jornada e,simultaneamente, as crenças, os cantos, as danças, os jogos, a caça, a pesca,o fumo, a bebida, os provérbios, os modos de cumprimentar, as palavras tabus, os eufemismos, o modo de olhar, o modo de sentar, o modo de visitar e ser visitado, as romarias, as promessas, as festas do padroeiro, o modo de criar galinha e porco, os modos de plantar feijão, milho e mandioca, o conhecimento do tempo, o modo de rir e de chorar, de agredir e de consolar... (1992, p. 324).
O autor possibilita uma compreensão ampliada dessas três formas de manifestações estabelecendo:
a cultura erudita cresce principalmente nas classes altas e nos segmentos mais protegidos da classe média: ela cresce com o sistema escolar. A cultura de massa, ou indústria cultural, corta verticalmente todos os estratos da sociedade, crescendo mais significativamente no interior das classes médias. A cultura popular pertence, tradicionalmente, aos estratos mais pobres, o que não impede o fato de seu aproveitamento pela cultura de massa e pela cultura erudita, as quais podem assumir ares popularescos ou populistas em virtude de sua flexibilidade e da sua carência de raízes (1992, p. 226).
COMPETÊNCIA SIGNIFICATIVA DO AUTOR
Professor titular de literatura brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, atual vice-diretor e ex-diretor (1997 a 2001) do Instituto de Estudos Avançados, Alfredo Bosi é editor da revista Estudos Avançados desde 1989. Em março de 2003, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Foi vice-diretor do Instituto de Estudos Avançados de 1987 a 1997, coordenou o Programa Educação para a Cidadania (1991-96), integrou a comissão coordenadora da Cátedra Simón Bolívar (convênio entre a USP e a Fundação Memorial da América Latina) e coordenou a Comissão de Defesa da Universidade Pública (1998). Presidiu a comissão do IEA que elaborou o Código de Ética da Universidade e é o presidente da Comissão de Ética da USP, sediada no Instituto.
Bosi é autor de "História Concisa da Literatura Brasileira" (1970), "O Ser e o Tempo da Poesia" (1977), "Dialética da Colonização" (1992) e "Machado de Assis: o mEnigma do Olhar" (1999) e "Literatura e Resistência" (2002). É ganhador do prêmio "Melhor Ensaio" da Associação Paulista de Críticos de Arte por "O Ser e o Tempo da Poesia", em 1977, e "Dialética da Colonização", em 1992. Por este último, tema central desta resenha, recebeu também o Prêmio Casa Grande e Senzala em 1992, conferido pela Fundação Joaquim Nabuco, e Prêmio Jabuti para melhor obra de Ciências Humanas, da Câmara Brasileira do Livro. E em 1992 recebeu a distinção "Homem de Idéias", conferida pelo Jornal do Brasil.
IMPORTÂNCIA DO TEMA
O autor de dialética da colonização amplia o conceito de cultura ao abordar a indústria cultural, a cultura popular; e as relações entre as culturas brasileiras, como erudita e de massa; de massa e popular; erudita e popular.
TEMA ABORDADO NA OBRA
Na obra Dialética da Colonização (1992), Bosi lança um olhar crítico à questão cultural, ao especificar as culturas brasileiras presentes na Cultura Brasileira. Tendo por base a concepção antropológica de cultura, explica que esta é o conjunto de modos de ser, viver, pensar e falar de uma dada formação social; e, ao mesmo tempo, abandonar o conceito mais restrito, pelo qual cultura é apenas o mundo da produção escrita provinda, de preferência, das instituições de ensino e pesquisa superiores(1992, p. 319).
Alfredo Bosi aponta que há limitações tanto na cultura popular quanto na cultura erudita, pois enquanto a primeira é limitada por sua falta de horizontes; a segunda, por sua falta de raízes. Da mesma forma que o rústico não sabe o céu sobre sua cabeça, o erudito não sabe o chão sob seus pés. É preciso, então, que o rústico alerte o erudito sobre a existência do chão e que este desperte aquele para a existência do céu.
HISTÓRICO DO TEMA
Na compreensão de Bosi, a relação entre cultura erudita e popular é a que apresenta maior grau de disparidade. Ou a primeira ignora as manifestações simbólicas do povo, ou as encara como um voyeur: “A cultura erudita quer sentir um arrepio diante do selvagem” (1992, p. 330).
Dessa relação conflitante de distanciamento e paixão pode nascer tanto a demagogia populista quanto a mais bela obra de arte. Tanto é assim que o autor cita como exemplo dessa última alternativa a música de Villa-Lobos, o romance de Guimarães Rosa, a pintura de Portinari e a poesia negra de Jorge de Lima.
E, naturalmente, a estes podemos acrescentar muitos outros: o nacionalismo das manifestações modernistas; e, na Música Popular Brasileira, as canções de Milton Chico Buarque de Hollanda, somente para citar alguns exemplos. A explicação para essa relação produtiva e positiva entre o artista erudito e a vida popular, na visão de Bosi (1992, p. 332), é simples: “a relação amorosa, que não carrega na produção erudita qualquer forma de preconceito, projetando na manifestação popular as suas próprias angústias”.
Por outro lado, Bosi aponta exemplos de uma erudição cheia de preconceitos, especialmente nas obras literárias do século XIX. “O índio, o negro, o mestiço, mulato ou caboclo são vistos como seres dignos de simpatia, embora mais toscos, mais rudes,mais instintivos, em suma, mais primitivos e, palavra que escapa, inferiores aos brancos” (1992, p. 223).A respeito da importância do movimento modernista no processo de aproximação entre cultura erudita e popular, o autor aponta que os intelectuais paulistas seguiam uma vertente mitopoética. “Cultura popular é entendida como expressão da sensibilidade tupi, articulada em lendas, mitos e ritos recontados pelos cronistas, pelos jesuítas e por alguns antropólogos contemporâneos. Em um segundo tempo Mário de Andrade se pôs a pesquisar também o mundo do negro e do mestiço” (1992, p. 333). Entretanto, Bosi tece indagações acerca da corrente modernista da década de 1920: teria sido uma alternativa estética de primitivismo puro ou uma manifestação futurista do que viria a ser a contracultura dos anos 60, quando o Tropicalismo retoma opensamento antropofágico do modernismo? “A cultura erudita busca renovar-se peloaproveitamento mais ou menos bruto, mais ou menos elaborado, do que lhe parece sera espontaneidade e a vitalidade populares” (1992, p. 334). Outro questionamento ainda do autor é se a cultura popular recebe alguma coisa da cultura erudita ou institucional. E para este busca resposta na História:
As camadas mais pobres da população brasileira [...] foram colonizadas pela cultura rústica ou, eventualmente, urbana dos portugueses, e pelo catolicismo ritualizado dos jesuítas; e agora, já em plena mestiçagem e em plena sociedade de classes capitalistas, estão sendo recolonizadas pelo Estado, pela Escola Primária, pelo Exército, pela indústria cultural e por todas as agências de aculturação que saem do centro e atingem a periferia. [...] Até onde as imagens, as idéias e os valores dessas agências culturais estarão penetrando no imaginário e condicionando o sistema de valores do povo? (1992, p. 336). Bosi chama estes processos de “fenômenos de reinterpretação”, pelos quais toda cultura dominante é absorvida e decodificada pela cultura dominada, de tal modo que, nesta última, já não fica da cultura superior nada a não ser, talvez, o desejo que têm os dominados de apreender os dons e os poderes dos seus patrões.
SOB O SIGNO DE CAM
Alfredo Bosi, em sua obra Dialética da colonização, especificamente no ensaio "Sob o signo de Cam", faz uma análise de alguns aspectos fundamentais da poesia condoreira de Castro Alves. Para o autor, nossa retórica poética sinaliza para processos de transformação, com a mudança da imagem do Brasil que, de paraíso tropical, passa a ser representado com uma nódoa social, por insistir na política escravagista. A paisagem poética que é revelada na obra de Castro Alves apresenta uma contradição entre o mundo natural e o inferno social, com projeções deste sobre as cenas românticas. O poeta mostra "palmeiras torturadas" e "epopéias manchadas" pelo estigma da escravidão. Nos limites do século XIX, Bosi vislumbra uma importante mudança no nível retórico.
Fazer o continente negro dizer-se, dar-lhe o registro de primeira pessoa, foi um passo adiante no tratamento de um tema que, pela sua posição em nosso drama social, tendia a ser elaborado como a voz do outro. [...] A combinação de uma África arcana ("há dois mil anos"...) com uma África-sujeito ("te mandei meu grito") é a novidade primeira do poema [...] pois dá ao pretérito mais obscuro e ao mito [...] o poder magnético da presença imediata em que se resolve todo ato de interlocução. A África é [...] um ser animado e, pela atualização do eu poético, um ser que tem consciência de sua identidade e de sua história (1992, p. 254).
Uma leitura mais atenta da obra de Alfredo Bosi mostra-nos como a tradição judaico-cristã, embasada no Gênesis, atribui ao homem negro a maldição de Cam – espécie de projeção de culpa. Por fim, para o autor de Dialética da colonização, a referência bíblica circula nos séculos XVI, XVII e XVIII, servindo de pretexto tanto às teologias católicas quanto àsprotestantes para que, se utilizando do velho mito com propósitos mercantis, justificassem a política colonizadora européia, que aprisionava populações islâmicas – ou de outras crenças – para salvá-las da "danação de Cam"."Mercadores e ideólogos religiosos do sistema conceberam o pecado de Cam e sua punição como o evento fundador de uma situação imutável [...]" (1992, p. 258).
ASPECTOS RELEVANTES DA OBRA
Dialética da colonização é uma reunião de ensaios do crítico Alfredo Bosi em que este aborda temas variados que vão desde a análise de particularidades nas obras de Anchieta, Vieira e José de Alencar, até reflexões sobre temas como cultura, indianismo e indústria cultural.
RECOMENDAÇÃO DA OBRA
Lendo Dialética da colonização é notório o grande crítico literário, ensaísta e intérprete do Brasil que é Alfredo Bosi. Esta sua obra é uma interpretação ampla, profunda e aberta do processo de formação cultural do Brasil.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BOSI, Alfredo. Sob o signo de Cam. In: Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.